(Extraído do livro Os Engenheiros de S.Paulo em 1932 - Arthur Morgan - 1934 - São Paulo)

 

Ruth

Parte II

 

Manoel Ferreira, ou daqui por diante, A-20 (ver Nota 1), uma vez chegado a New York, de acordo com as instruções que levara, começou a agir, utilizando-se de um amigo e o do Tenente Aviador do Exército Americano, Sr. Leigh Wade, assas conhecido no Rio de Janeiro como excelente acrobata aéreo e vendedor dos aparelhos Fleet.

 

O nosso cônsul em New York nessa ocasião, Sr. Sebastião Sampaio, colaborou com A-20 que se pôs a campo imediatamente. O numerário, entretanto, andava viajando entre Buenos Aires e New York. Primeiramente ele custou a existir, tanto que A-27 chegou a estar descoberto com 50.000 dólares de seu dinheiro particular. Quando devia existir dinheiro em Buenos Aires, A-20 gritava que precisava pagar o que estava comprando nos Estados Unidos e quando houve possibilidade de algum armamento em Buenos Aires, não existia dinheiro ali.

 

A-20 desenvolvendo sua atividade foi comprando o que pôde. Uma vez adquirido o Ruth, tornou-se necessário equipá-lo. Isto feito era preciso ir embarcando a carga aos poucos. Comprou-se então uma veloz lanchinha marca Sealion, com motor Stearling Patrol de 200 HP capaz de fazer 45 milhas por hora.

 

Ela auxiliou eficazmente no embarque do material e facilitaria também o desembarque à noite na Praia Grande, ou qualquer outro ponto no caso do Ruth não poder entrar no Porto de Santos protegido pela escuridão da noite, pelos aviões paulistas ou pelo Forte de Itaipús.

 

Como foi trazido o material para ser levado para bordo? Pois nada mais, nada menos, do que por caminhão, acompanhado durante a madrugada por Lincolns blindados e armados com as metralhadoras de gangsters tomados para esse serviço. Uma vez posta a carga na lanchinha a tripulação do Ruth a recebia e guardava.

 

Entraria o Ruth em Santos? Parece que não podia haver dúvida, uma vez que ele era tripulado por gente experimentada e comandado pelo Capitão Von R... (ver Nota 2) de longa prática e desmedida coragem. Perguntado uma vez se achava viável a entrada em Santos, ele respondera com outra pergunta:

 

- Quantos navios de guerra fazem o bloqueio do porto?

 

- Um cruzador e dois destroyers, responderam-lhe, ao que ele, entre uma baforada de seu cachimbo e um sorriso entre dentes, replicara:

 

- Um pouquinho menos do que a esquadra inglesa do Mar do Norte...

 

Sim, porque ele tinha realizado essa proeza, isto é, regressar à Alemanha atravessando por entre a formidável esquadra britânica. Von R... foi o imediato de um navio alemão que deixou renome e cuja oficialidade e tripulação cobriu-se de glória e escreveu em letras de ouro na história naval do mundo, um poema de bravura, de tática, de eficiência e de cavalheirismo.

 

Preparado para partir, toda a carga posta a bordo com a dificuldade e os cuidados necessários devido a sua natureza e a não despertar suspeitas, abastecido de óleo e comestíveis para a viagem, seus papéis em ordem, o Ruth estava pronto para partir com tanques de óleo sobressalentes para atingir Buenos Aires e A-20 viria nele.

 

Nota 1 - O autor substitui alguns nomes por códigos para preservar a identidade de alguns envolvidos

 

Nota 2 - O autor não menciona o nome do comandante do navio para preservar sua identidade

 

 

(continua na Parte III)